Red Guardian e os Refuseniks… Não há bandidos e nem mocinhos

Ler quadrinhos “antigos” é uma experiência interessante, pois, mesmo que as histórias fossem “contemporâneas” na época, mostram fatos e realidades completamente diferentes do que conhecemos hoje (e isso vai acontecer com as histórias atuais daqui 10-20-30 anos). Muitas vezes isso está escancarado, em outras é mais discreto, mas as referências saltam aos olhos de quem viveu aquilo – como é o meu caso. Esses detalhes acabam atingindo outra dimensão até de memória afetiva, pois mesmo que fossem tragédias, nos lembramos do contexto da época e de uma série de outras coisas – e esse efeito os leitores atuais, que nasceram depois desses fatos, perdem completamente.

Séries de crítica social, como Howard the Duck (1976), são cheias de referências e fatos que até mesmo haviam desaparecido de nossas memórias – o que às vezes até complica o entendimento por quem desconhece, e a genialidade dos roteiristas (como Steve Gerber, no caso) fica obscurecida. Mas outras séries “normais” têm esses detalhes menos definidos, e podem ser lidas e entendidas sem problema por quem desconhece – porém, se você conhece, a coisa atinge outro patamar e dá uma satisfação maior ao ler as histórias.

É o caso de muitas histórias da Marvel dos anos 1960/1970/1980, onde a Guerra Fria era uma realidade bastante retratada nos quadrinhos da editora. Mesmo com os roteiristas se tornando menos “ideologizados”, não havia alienação que ignorasse que o mundo era bipolar: EUA x URSS. No caso, temos aí um exemplo do mesmo Steve Gerber, um dos mestres em inserir temas contemporâneos nas histórias, um pouco depois do que aconteceram, para evitar desgaste desnecessário com ânimos exaltados.

A história em questão saiu em Defenders (1972) #40 (outubro/1976), produzida por Steve Gerber e Sal Buscema, e a personagem principal é a Red Guardian, então membro dos Defenders. Nós já dedicamos um post exclusivo a Tanya Belinski, a neurologista russa que se tornou uma versão feminina do herói patriótico soviético/russo Red Guardian – depois ela se tornou Starlight, após obter poderes “radioativos” concedidos pelo supercientista soviético Presence. Starlight eventualmente se tornou uma heroína na Rússia até desaparecer em outra dimensão. Enfim, aqui ela está no início de sua jornada.

Ela estava refugiada nos EUA, após ter “mudado de lado” na Guerra Fria (fizemos também um post de Elementos em Comum aqui no blog, e ela está lá), e se tornou membro dos Defenders. Porém, a população não estava muito feliz com a presença dela entre os heróis americanos: como os Defenders podiam aceitar uma heroína comunista entre eles? (semelhanças com o momento atual mostram a atemporalidade de certos aspectos… hehe).

Numa dessas manifestações de repúdio, Red Guardian saiu à rua para capturar quem jogou uma pedra com um bilhete assinado por um “Comitê pela Emigração Livre” e acabou se metendo em uma situação que envolvia… refuseniks! O quê? E ainda um deles tinha superpoderes!

Os refuseniks fazem parte de um tópico típico da Guerra Fria, e envolvia um controle superestrito da URSS sobre emigrações, temendo “fuga de cérebros” para o Ocidente. Mas também envolvia aspectos autoritários de restrição de liberdade de grupos étnicos e religiosos – minorias alemãs, armênias e gregas, além de pessoas que seguiam a Igreja Cristã Ortodoxa, batistas, testemunhas de Jeová. Essas pessoas eram oprimidas pelo regime soviético, que não permitia que fugissem. Porém, o grupo mais afetado e mais “vocal” era o dos judeus – principalmente porque muitos judeus eram “cérebros” que não se queria que saíssem do controle do governo, principalmente sob receio de que revelassem segredos de Estado [além de passarem a colaborar com o inimigo]. A situação com os judeus era tamanha que, após tentarem sair do país, perdiam seus empregos e seus títulos acadêmicos e passavam a viver de trabalhos braçais ou até mesmo a serem presos por “vadiagem” ou “parasitismo social” e serem enviados para prisões na Sibéria.

Um caso emblemático ocorreu em 1970, quando um grupo de judeus soviéticos aplicou um “golpe” ao fretar um avião para um casamento e, antes que o avião partisse, expulsaram o piloto e o copiloto – o objetivo era fugirem da URSS por via aérea. O avião foi capturado pelo governo soviético ainda no território soviético e os líderes foram condenados à morte por terrorismo, o que movimentou muito a comunidade internacional e, após protestos, as penas de morte foram comutadas em penas de prisão de 4 a 15 anos.

Esses eram os refuseniks, e os anos 1970 foram especialmente pródigos em notícias sobre intelectuais ou cientistas soviéticos que queriam emigrar do país e não conseguiam, gerando campanhas internacionais. A URSS relaxou um pouco essa política em 1971, mas apenas com Mikhail Gorbatchev, em meados dos anos 1980 (um pouco antes do fim da URSS), foi que isso foi encerrado.

Muito bem, voltando à história de Defenders, Gerber usou o assunto dos refuseniks um pouco longe do seu pico de 1970-1971 (o episódio do sequestro do avião), para poder explorá-lo de outra forma. Polêmico como sempre, Gerber apontou que os refuseniks eram oprimidos, mas também adotavam táticas que poderiam ser tidas como terroristas (alguma semelhança com o duplo-padrão do debate público atual não é coincidência… hehe).

Na história, os “super”-refuseniks queriam usar Red Guardian como “chantagem” para forçar a URSS a libertar mais pessoas para emigrarem. Ora, mas a própria Red Guardian havia se refugiado, certo? Sim, mas ela representava um exemplo da “fuga de cérebros”, seria um ativo interessante para chantagear quem queria ela de volta – ora, ora, ora!

Red Guardian derrotou essa “célula terrorista” refusenik na mesma edição, e terminou dizendo que tinha que “pensar no assunto” depois de descansar. Mesmo mais distante do calor dos acontecimentos de 1970, e, portanto, de uma reação ruidosa dos leitores americanos contra a postura crítica de Gerber, o assunto ainda gerava comoção no noticiário americano. Muitos leitores estranharam (e estranham até hoje) a posição ambígua de Gerber, mas o fato é que ele mostrou a realidade de qualquer conflito: embora possa existir um lado mais oprimido que o outro em certas circunstâncias, as reações não são maniqueístas, não se trata de “bem contra o mal”. O próprio Doctor Strange se refere aos refuseniks (sem saber do que se tratava) no final da história como “terroristas” – o que, de fato, foram acusados no incidente de 1970-1971.

Fica difícil não simpatizarmos com os refuseniks da história real (mesmo os do incidente), mas o fato é que podiam se envolver em atos questionáveis – como mostra a história de Gerber. Felizmente o assunto dos refuseniks morreu com o fim da URSS, e o termo hoje foi incorporado no inglês coloquial dos EUA para designar qualquer pessoa que se recusa a fazer algo como protesto. Infelizmente, os “herdeiros” da URSS ainda praticam políticas parecidas… em pleno século 21.

Fontes:

Revistas referidas

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Sabretooth: Quando os planos não dão certo e autossabotam o que se esperava do personagem

Sabretooth é o arqui-inimigo de Wolverine… isso é amplamente conhecido, mesmo por quem só conhece os dois personagens dos filmes e/ou séries animadas (e/ou até games). Mas não é bem isso que aconteceu nos quadrinhos, embora fosse uma intenção inicial.

Sabretooth foi criado por Chris Claremont e John Byrne na revista Iron Fist (1975) #14 (agosto/1977). Sim, o personagem foi criado como inimigo de outro herói (Iron Fist), e os planos eram para que ele fosse recorrente. Porém, Claremont tinha a ideia fixa desde o início de que Sabretooth era pai de Wolverine e mais forte e sanguinário que este. Isso até corrobora o fato de que a aparência de Sabretooth veio de um desenho descartado da face real de Wolverine (que até então não tinha aparecido sem máscara – já contamos essa história aqui no blog, nos posts das Origens Criativas de Wolverine – o desenhista Dave Cockrum acabou fazendo outro rosto para Wolverine) feito por John Byrne.

No entanto, Sabretooth foi derrotado por Iron Fist e, vamos convir, nessa época Wolverine ainda não era o personagem quase impossível de morrer que conhecemos hoje – portanto, ser mais forte e selvagem que Wolverine não era assim tão fora de parâmetros para Sabretooth, mesmo perdendo o confronto para Iron Fist. Agora, por que exatamente Claremont criou esse personagem com ligação com Wolverine para ser inimigo de outro herói? Excetuando-se a coincidência da mesma equipe criativa ser responsável pelo personagem, não temos outra resposta.

Talvez Claremont planejasse transferir Sabretooth para as histórias dos X-Men no futuro próximo, mas isso não aconteceu tão rápido. De fato, levaram-se quase 10 anos, e nesse período, outros roteiristas assumiram as histórias de Iron Fist (agora em parceria com Power Man (hoje Luke Cage)) e Sabretooth se tornou parceiro do… Constrictor! E continuou levando surras. Não bastasse isso, Sabretooth também apareceu em uma fase da revista Peter Parker the Spectacular Spider-Man (1976), e, em um arco escrito por Peter David, apanhou de Black Cat! Que diabo de vilão “poderoso” era esse?

Claremont só trouxe Sabretooth para o contexto dos X-Men em Uncanny X-Men (1963) #212 (dezembro/1986), durante o evento Mutant Massacre, com desenhos de Rick Leonardi. E mesmo aí, ele era membro do grupo Marauders, que servia aos interesses do megavilão Mister Sinister. Claremont começou a rixa entre os dois rivais oficialmente aí (embora já indicasse que os dois se conheciam de antes, de uma longa história). Porém, nada de relação pai/filho ser indicada. No entanto, outra coisa destoava, como um personagem que apanhava tanto de heróis de “nível de força mais baixo” poderia ser um grande rival de Wolverine, que já começava a ultrapassar seus níveis originais?

Claremont queria restabelecer esses parâmetros antes de prosseguir adiante nas revelações do passado dos dois personagens, mas foi devagar. Em Wolverine (1988) #10 (agosto/1989), Claremont e John Buscema (com artefinal de Bill Sienkiewicz) mostraram esse histórico um pouco mais a fundo, com a famosa história da “surra de aniversário” que Sabretooth imprimia em Wolverine em todo aniversário do herói canadense, deixando ele quase morto, apenas para “lembrar como as coisas são” – hein? Sim, Claremont começava a pôr em andamento seus planos iniciais – Sabretooth era mais forte e selvagem que Wolverine (e ainda vem a suspeita de que são parentes aí).

Agora como explicar isso? Wolverine teria “enfraquecido” ao controlar seus instintos animalescos? Mas isso não explicaria por que Sabretooth apanhava tanto antes. Claremont teve a ideia de apontar que o Sabretooth “fraco” era um clone (uma saída do tipo clichê, mas útil), mas isso não foi para a frente. Claremont não tocou mais no assunto.

Curiosamente, outros roteiristas desenvolveram essa ideia – não diretamente ligada a esse aspecto específico de Sabretooth, mas ligada aos Marauders, que morriam e reapareciam sem explicação: ora, Mister Sinister tinha um estoque de clones de seus agentes! Assim, embora nunca ninguém tivesse apontado que aquele Sabretooth que apanhava era um clone, era um raciocínio lógico se alguém quisesse explicar isso.

A história dos clones de Sabretooth se mostrou tão útil que, já nos anos 2000, quando Wolverine decepou Sabretooth, algum tempo depois surgiu outro Sabretooth – um clone… hehe E é esse que temos até hoje. Ou será que hoje temos o original e antes era outro clone? E se todos esses são clones e nunca conhecemos o original? hehe

Claremont nunca chegou a oficializar o parentesco entre Sabretooth e Wolverine na cronologia oficial, embora tenha voltado a trabalhar com o personagem várias vezes. E isso foi descartado oficialmente em Wolverine (1988) #42 (julho/1991), por Larry Hama e Marc Silvestri, em que um teste realizado pela SHIELD rejeitou o parentesco (não que isso fosse algo imutável no Universo Marvel). Porém, isso fazia parte do conceito que Hama estava desenvolvendo, de que as memórias de Wolverine e Sabretooth eram implantadas pelos grupos de operações secretas para os quais trabalharam (dentre os quais a CIA).

Claremont, contudo, não desistiu quando teve chance – quando recebeu a chance de ter um projeto fora de cronologia – X-Men Forever (duas séries: 2009 e 2010), tascou lá o parentesco de Sabretooth e Wolverine finalmente – apenas na Realidade-161… hehe

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Official Handbook of the Marvel Universe

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Um dos conceitos mais desenvolvidos na caracterização de X-23: o uso de feromônios!

X-23 é uma personagem daquele tipo especial, que veio de outra mídia para os quadrinhos. Sim, se você não sabe, X-23 surgiu como um clone feminino e adolescente de Wolverine na série animada de TV X-Men Evolution. Fez tanto sucesso que Joe Quesada, então editor-chefe da Marvel, tratou de introduzi-la nos quadrinhos.

Na série animada, que apresentava versões adolescentes dos X-Men, X-23 surgiu como uma versão mais rejuvenescida do personagem, para criar mais identificação com o público-alvo (embora Wolverine estivesse na série como professor). Mas era uma personagem do tipo “Pinóquio às avessas”, já que era uma “samurai assassina” tentando se tornar uma menina normal.

Nos quadrinhos, ela foi apresentada de forma mais ousada, inicialmente como uma prostituta adolescente (na série NYX (2003), por Joe Quesada), mas depois como uma assassina impiedosa e radical, a serviço de um programa secreto chamado Facility, e depois se libertando disso – em minisséries próprias, escritas por seus criadores na animação, Craig Kyle e Chris Yost). Mas, para evitar o clichê usual quando se trata de clones, não era só o fato de ser uma garota que a diferia de Wolverine, pois ela tinha outras diferenças, como duas garras em cada braço em vez de três, além de mais uma garra em cada pé. Seu fator de cura também era absurdamente mais potente que o de Wolverine. E ela também tinha surtos de agressividade descontrolada, mas que respondiam a um gatilho de feromônio!

Esse gatilho de feromônio é um grande achado na caracterização dela, colocando um tempero a mais. Ah, mas pode-se falar que acessos de fúria descontrolada são comuns em Wolverine e qualquer outro herói ou vilão com poderes animalescos, certo? Certo. Uma das grandes batalhas da vida de Wolverine é justamente estar sempre lutando para se controlar e dominar seus instintos, evitando esses acessos descontrolados – de fato. Mas de onde vem isso? E isso poderia ser usado propositalmente?

O uso de feromônios não é novidade em histórias de super-heróis, mas a inclusão desse mecanismo na caracterização de um personagem, como aconteceu com X-23, já é algo mais elaborado. Afinal, faz parte do propósito de existência da personagem (no contexto da cronologia).

Antes de tudo, o que são feromônios? São substâncias químicas geradas pelos organismos para causar reações em outros organismos. Diferentemente dos hormônios (que atuam na circulação sanguínea), os feromônios atuam externamente, por meio do olfato. A existência de feromônios é verificada em vários tipos de organismos, inclusive bactérias, protozoários, plantas e animais. Até mesmo os seres humanos produzem seus feromônios, que estão associados a estímulos sexuais e de amamentação (e por isso existem perfumes que alegam ser afrodisíacos).

Nas plantas, os feromônios estão ligados a amadurecimento de frutos, por exemplo. Nos animais, especialmente insetos, há uma grande variedade de estímulos sendo descobertos e estudados, ligados a reprodução e atividades de insetos que vivem em sociedade. Nos animais mais avançados, como aves e mamíferos, também há várias utilidades, como localização espacial, reprodução, delimitação de território e agressividade/submissão.

Obviamente, conclui-se que o sentido do olfato deve ser apurado para sentir isso – nos seres humanos, onde esse não é um sentido tão apurado, há muita contribuição de sinais visuais para os efeitos atribuídos aos feromônios. Existe um “órgão vestigial”, o órgão vomeronasal, nos humanos que aparentemente era muito usado para isso em um passado evolutivo – ou ainda pode ser?

Existe também a possibilidade de interação interespécies como feromônios – por exemplo, quando se diz que um cão “sente” o medo de uma pessoa, isso poderia ter algum feromônio envolvido, além de eventuais sinais visuais. O próprio comportamento instintivo dos animais, que muitos imaginam ser um “padrão comportamental impresso” tem um componente químico feromonal importante, dependendo do caso.

Enfim, depois dessa explicação toda, chegamos ao “gatilho de feromônio” de X-23. Como todo superser com poderes animalescos, X-23 tem olfato apurado e aí, quando sente esse feromônio, entra em frenesi agressivo e ataca e mata quem estiver na frente (fez isso com a própria mãe adotiva [a mãe já voltou à vida, mas essa é outra história… hehe]). Alguém pode dizer que, no caso de Wolverine, deve funcionar do mesmo jeito – e faz sentido. Mas existem diferenças.

Primeiro que, no caso de Wolverine, nunca se falou de um elemento feromonal em suas histórias – os roteiristas simplesmente ignoraram, considerando que eram acessos de selvageria condicionados por sua mutação – o que seria, inclusive, reforçado se ele fosse realmente um “carcaju evoluído a humano”, como se chegou a aventar.

No caso de X-23, esse feromônio foi desenvolvido especificamente para ela e “transformado em arma” para o controle de quem estiver usando a própria X-23 como arma viva. Não é uma substância natural produzida pelo organismo de X-23 e muito menos encontrado na natureza. Assim, essa “kryptonite” de X-23 se tornou totalmente instrumentalizada por alguns de seus inimigos.

Com o passar do tempo, X-23, ou Laura Kinney, como passou a se chamar, conseguiu controlar suas respostas a esse feromônio, e até mesmo, passou a ter um “refresco” após matar todos os que tinham acesso a isso… ou não? Como se trata de manipulação de engenharia genética, qualquer um que tiver acesso ao DNA de X-23 pode desenvolver isso, e como ela já conheceu vários outros clones de si mesma (como Gabby/Honey Badger), é óbvio que essa ameaça nunca sairá da vida dela.

X-23 é uma “evolução” na caracterização de “ciência super-heroística” de Wolverine… casa bem com o nome da série animada, X-Men Evolution… hehe

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Official Handbook of the Marvel Universe

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O mistério do passado do Falcon: Snap Wilson existiu ou não? – parte 2

Como vimos na primeira parte do post, Falcon foi um personagem “lacrativo” criado por Stan Lee e Gene Colan, mas não no sentido pejorativo ou panfletário – foi um personagem criado para dar representatividade “digna” a personagens afroamericanos, sempre tocando em assuntos relevantes, sem ser militante. No entanto, com todo esse cuidado, acabou se tornando um personagem “perfeito” demais. Como parceiro de Captain America no combate ao crime, Falcon não tinha defeitos, mesmo tendo uma origem misteriosa ligada ao Cosmic Cube. Por causa disso, o roteirista Steve Englehart resolveu “apimentar” a coisa um pouco e revelou que Falcon fora um cafetão e contraventor negro estereotipado em Nova York, antes de ser “regenerado” pelo Cosmic Cube – pronto, estava manchado! Provavelmente ele iria desenvolver isso depois, mas…

Englehart brigou nos bastidores da Marvel e saiu da editora (voltaria na década seguinte) e deixou a bola pingando, sem uma resolução… e quem passou a escrever as histórias de Captain America and Falcon depois disso? Jack Kirby! Porém, em seu retorno à Marvel, Kirby não queria mexer com coisas que outros roteiristas haviam mexido no período em que ele esteve afastado da editora, trabalhando na DC. Por isso tivemos séries inéditas, como Eternals, Devil Dinosaur e Machine Man, e séries com personagens mais antigos que ignoravam a cronologia imediatamente anterior: Black Panther e Captain America and Falcon (além de uma graphic novel de Silver Surfer, em parceria com Stan Lee). Ou seja, Kirby ignorou totalmente a história de Snap Wilson daí para a frente… e mesmo os roteiristas que entraram depois dele, nunca mais tocaram no assunto!  Bem… todos menos um: Jean-Marc DeMatteis.

Enquanto era o roteirista de Captain America, DeMatteis resolveu abordar o assunto, dando uma “explicação”. Em uma série de backup em 3 partes, em Captain America (1959) #276-278 (dezembro/1982-fevereiro/1983), e desenhada por Mike Zeck (que era parceiro de DeMatteis na equipe criativa da revista), vemos Sam, já “aposentado” da carreira heroica e concorrendo ao Senado, e entrando em um “colapso nervoso”, com a persona de Snap tentando voltar. E aí surge um “reverendo Garcia” trazendo Sam de volta à realidade do presente: soubemos que o pai de Sam era um pastor, mas que tanto ele quanto a mãe de Sam foram mortos pela violência do bairro – Sam ficou revoltado com o mundo, e mesmo com a criação religiosa que teve, criou uma “persona” revoltada – Snap! O “reverendo Garcia” mostrou que Snap existiu, mas foi algo “criado” por Sam… e que o Red Skull havia retirado isso de sua mente e ele não deveria se preocupar mais com isso (mesmo que não se pudesse apagar o passado). O problema é que o reverendo Garcia de verdade não estava em Nova York no momento… que “reverendo” foi aquele que aconselhou Sam? Criação da mente dele?

Nunca soubemos, mas ficou evidente que Snap Wilson existira (e trouxe consequências) e Sam Wilson era outra pessoa (por causa do Cosmic Cube)… o personagem foi “manchado”, mas superou o passado problemático e agora tocava a bola pra frente, com a responsabilidade do que fez no passado. Nenhum outro roteirista resolveu mexer nesse vespeiro mais… exceto Christopher James Priest, na série Captain Marvel and Falcon (2004), em que a persona de Snap Wilson voltou… bem, mais ou menos… não assumiu o controle, mas Sam ficou mais “revoltado” que o normal, e esse passado criminoso contribuiu para que fosse perseguido pela justiça. Em todo caso, isso não foi adiante e foi ignorado depois.

Dessa forma, Falcon ficou com essa mancha por todo esse tempo desde a fase de Steve Englehart, mas mesmo assim entrou em outras divididas de políticas sociais, como quando foi incluído “à força” na equipe dos Avengers para cumprir cota racial (ordem do governo)… e se revoltou contra isso, achando que não estava sendo reconhecido por mérito… Falcon eventualmente entrou como membro titular dos Avengers tempos depois, mas sempre se manteve com menos destaque. Até que chegou o momento em que se tornou Captain America!

E aí como fazer que um Captain America negro fosse aceito depois de ser criminoso? É curioso lembrar que Captain America virou um “ativista” antiarmas e antiassassinato nos anos 1980-1990, mas ele usou armas e matou gente durante a Segunda Guerra Mundial – não houve nenhuma explicação do porque ele teria mudado de atitude – simplesmente se desconsiderou isso tudo e ele passou a adotar o discurso pacifista. Mas com Falcon não seria assim.

O roteirista Rick Remender foi quem veio com a solução óbvia para isso (em All-New Captain America (2015) #3 (março/2015), com arte de Stuart Immonen) – o passado de Snap Wilson NÃO era real, era outra manipulação do Cosmic Cube feita pelo Red Skull com propósitos posteriores de envolver Cap em alguma acusação de racismo (opa… pensamento de longo prazo! hehe).  Ok… se a memória era falsa, Sam nunca foi Snap… mas o que fazer com o conhecimento público? Isso simplesmente foi ignorado, ou foi apagado pelo Cosmic Cube em algum momento… ou sei lá… hehe

Em tempos de tanta divisão social como hoje, Sam Wilson sentiu isso na pele como Captain America, com a Marvel retratando o personagem sendo rejeitado por muitos americanos… por ser negro? Ou porque, durante o evento Axis, Sam foi “invertido” e se tornou um herói negro “fascista”? É curioso que o termo “not my Captain America” apareceu nas histórias de Sam como Captain America nessa época – que é uma referência direta aos americanos que rejeitam a presidência de Donald Trump, e falam “not my president”… só que essa alegoria pode ser dúbia… não é? Quando o Cosmic Cube reescreveu a história de Captain America e Steve Rogers se tornou nazi-fascista (no evento Secret Empire) a coisa fica mais nublada ainda.

Sam Wilson voltou a ser Falcon, mas seria interessante se fosse libertado das histórias temáticas, para que não se torne um clichê – o que nunca foi, exceto enquanto foi Snap Wilson! Para pensar…

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O mistério do passado do Falcon: Snap Wilson existiu ou não? – parte 1

Falcon, o parceiro de Captain America – e que até inclusive chegou a vestir o manto do herói, quando este teve os efeitos do soro do supersoldado anulados e envelheceu rapidamente – é um dos personagens mais politizados do Universo Marvel, mesmo não parecendo. Muita gente associa Black Panther e Luke Cage como os epítetos do movimento de afirmação afroamericana e contra o racismo nos quadrinhos da Marvel, mas Falcon foi criado e empregado muitas vezes com atitudes tão ou mais incisivas.

Primeiramente, Stan Lee e Jack Kirby (e depois Jim Steranko) tentaram emplacar Rick Jones (o “sidekick” do Hulk) como um novo Bucky para Captain America depois que este foi descongelado – mas isso não deu certo e Rick Jones se tornou “sidekick” (mais um “parceiro”, já que ocupavam o mesmo espaço) de Captain Marvel (Mar-Vell). E nunca se deve esquecer de que Stan Lee não gostava do conceito de sidekick (“sidekick” é o ajudante-mirim de um herói, como Robin ou Bucky). Porém, Captain America precisava de um “ajudante” em suas aventuras no presente, justamente como contraponto às mudanças com que ele se defrontava na nova realidade em que ele vivia depois de ser descongelado. Foi aí que surgiu Falcon, desenvolvido por Stan Lee e Gene Colan.

Ao contrário do que muitos pensam, Marvel e DC não ficaram mais “lacrativas” hoje em dia – elas sempre foram, em maior ou menor intensidade, e dentro das limitações sociais da época, desde a segunda metade dos anos 1960, quando a Guerra do Vietnã e a maior discussão sobre a luta pelos Direitos Civis (tudo isso temperado por movimentos libertários, como o hippie). É claro que ainda havia muitos tabus a serem superados nas próximas décadas, mas ali estavam algumas sementes do que podia ser discutido, ainda dentro do Código de Ética ainda em pleno vigor nos quadrinhos.

Uma bandeira que começava a ser uma preocupação nos comics era a representação dos afroamericanos, de uma forma que não fosse preconceituosa ou diminutiva. Black Panther foi o primeiro super-herói, especializado em supertecnologia – e que depois até se tornou uma “versão” de Sidney Poitier nos quadrinhos (o ator Poitier estourava com o filme “Ao Mestre com Carinho”). Falcon surgiu nessa esteira, sendo o primeiro super-herói negro sem o “Black” no nome – o que já era um grande avanço!

Falcon também surgia como o candidato ideal para ser parceiro de Captain America, pois, como negro, poderia apontar melhor ao herói patriótico qual é a realidade oprimida que os afroamericanos tinham na sociedade americana da época. Falcon, cujo nome era Sam Wilson, também seria um assistente social (para reforçar ainda mais sua preocupação social) e até, depois, se tornaria candidato ao Senado americano. Falcon não fazia proselitismo barato e nem panfletário (aliás, a Marvel não fazia isso nessa época), mas apresentava as coisas para o leitor pensar.

Porém, nem tudo era um “mar de rosas” para Falcon. Stan Lee tinha preocupação de que Falcon não se tornasse um sidekick de Captain America – afinal, poderia surgir a crítica de que seria um negro submisso a um branco. Então ele seria um parceiro do herói patriótico – tanto é que o nome da revista de Captain America passou a ser, por um longo tempo, Captain America and Falcon.

No entanto, essa preocupação tornou o personagem “perfeito” demais. Falcon surgiu “do nada” em Captain America (1959) #117 (setembro/1969) – em um arco em que o Red Skull usou o Cosmic Cube para trocar de corpo com Captain America, este ficou preso em uma ilha no Caribe controlada por aliados nazistas do Red Skull: os Exiles (não os heróis, claro… hehe). Steve Rogers (Cap), no corpo de Red Skull, se encontrou com Sam Wilson ali e ambos se aliaram contra os Exiles e Red Skull, até que os corpos foram trocados de novo. Sam tinha um “elo psíquico” com seu falcão, chamado Red Wing. Essa habilidade (assim como outra, de “enxergar” pelos olhos de qualquer ave dentro de um raio de ação) seria decorrente do Cosmic Cube – ou seja, Sam Wilson foi criação do Red Skull… com que razão? Guarde esta informação.

Voltando aos EUA, também “do nada”, Captain America e Falcon se tornaram parceiros contra o crime. Stan Lee estava sintonizado com uma “modinha” da época, em séries de TV, que apresentavam duplas de um branco e um negro que atuavam como heróis ou anti-heróis, justamente tratando dos contrastes, mas reforçando a amizade e a fidelidade entre eles, desenvolvida após a superação de adversidades – a própria Marvel tinha uma série assim (de Western, chamada os Gunhawks) e uma dupla de vilões (Hammer e Anvil, inimigos do Hulk). Portanto, Cap e Falcon se encaixavam nessa estética… até que veio o roteirista Steve Englehart.

Englehart, que adorava “descaracterizar” personagens (viu só? também não é novidade) e “apimentar” as relações sociais destes, se incomodou com essa perfeição extrema de Falcon – e resolveu fazer das suas. Surgiu então o passado polêmico de Sam Wilson – na verdade, ele seria um ex-cafetão e contraventor (com todos os clichês possíveis dos filmes de Blackxploitation da época) que foi participar de um esquema no Rio de Janeiro (!), onde comprou Red Wing, e, depois, seu avião caiu na ilha dos Exiles, onde teve seu passado alterado (e poderes concedidos) pelo Cosmic Cube!

Nesse passado oculto, Sam era Snap Wilson e era um criminoso conhecido – o que atrapalhou sua carreira política. Mas… ia ficar assim mesmo? Depois de todo o cuidado que Stan Lee teve com a concepção do personagem, para evitar estereótipos pejorativos, ele iria ficar “manchado” assim? Ok, Sam havia se regenerado, mas quem garantia que isso não era consequência do Cosmic Cube também?

É isso que vamos ver na segunda parte deste post, além das consequências disso.

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Official Handbook of the Marvel Universe

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Alguns personagens estão amaldiçoados a nunca se estabilizar ou dar certo? O caso de Marrow…

Essa é uma pergunta que se aplica a vários personagens da Marvel e, de modo muito especial, Marrow. Mesmo quando tudo parece ter se resolvido, alguma coisa acontece e a deixa pior do que antes. E o mais trágico dessa história é que a primeira aparição de Marrow, como criança, não predizia o que ela iria se tornar.

Sim, Marrow surgiu na revista Cable (1993) #15 (setembro/1994) como uma criança morlock, chamada Sarah, que sobreviveu ao massacre de mutantes empreendido por Mister Sinister e seus Marauders (que aconteceu no evento Mutant Massacre, nos anos 1980). Seus criadores foram Jeph Loeb e David Brewer, mas nada indicava o que ela se tornaria (e provavelmente seus criadores também não tinham ideia) – pontos identificatórios? Apenas sua pele rosa (embora não demonstrasse seus cabelos roxos).

O roteirista Scott Lobdell foi quem “selou” o destino da personagem, quando a trouxe de volta no one-shot X-Men: Prime (julho/1995), já crescida e com um aspecto horrendo – uma garota com face envelhecida e tufos de cabelo roxo saindo por entre pontas de ossos saindo do corpo, especialmente da cabeça (o que, inicialmente, era até sem sentido, pois as pontas de ossos que surgiam no crânio eram de membros…, isso foi corrigido depois). Os poderes de Sarah eram o de gerar ossos espontânea e continuamente do corpo, podendo destacá-los e usá-los como armas brancas ou porretes. Apesar de ser esdrúxulo, o poder tinha certo sentido, se fosse assumido que esses ossos sobressalentes não se ligavam a nenhum músculo ou ligamento (para quê detalhes chatos, né? hehe). Obviamente, também havia a obrigatoriedade de um fator de cura hiperacelerado, que não impedia que Marrow vivesse constantemente com dores (devido aos ossos gerados fora de posição e rasgando seu corpo). Marrow voltou como líder de um grupo terrorista mutante chamado Gene Nation.

Ok, mas como ela deixou de ser criança em tão pouco tempo? Na verdade, ela e uma parte dos morlocks foi resgatada por Mikhail (irmão de Colossus e Magik) – com seus poderes mutantes extradimensionais, ele levou os morlocks para um refúgio extradimensional, onde o tempo passava mais rápido. Não bastasse isso, as crianças morlocks do grupo foram criadas em um ambiente de extrema competição, em que cada um tinha de lutar pela vida em um ambiente inóspito para conseguir sobreviver. Essa foi a Marrow que voltou desse exílio e, obviamente, totalmente selvagem e vingativa – contra a humanidade, mas, especialmente, contra os X-Men.

Marrow e sua Gene Nation enfrentaram os X-Men e a equipe adolescente da Generation X algumas vezes, até que houve um confronto “final” com Storm – Marrow fixou uma bomba potente em seu coração, que explodiria, ceifando sua própria vida e a de muitos outros. Em mais uma situação de escolha de Sofia em sua vida, Storm optou por matar Marrow e extrair seu coração, desativando a bomba – tudo resolvido, certo? A ameaça foi contida e Marrow não voltaria mais…né? Não.

Acontece que, convenientemente, a mutação de Marrow envolvia a existência de dois corações! Ahá! Sim, senhores! Storm salvou a vida de Marrow sem saber! A líder dos morlocks, Callisto, recolheu o corpo de Marrow e esperou que ela voltasse a si (e, provavelmente, o “segundo coração” seria reformado depois). Depois de algum tempo, Marrow voltou à ativa, mas, sob orientação de Callisto, resolveu ajudar os X-Men, em um momento de ameaça extrema (o evento mutante Operation: Toleration Zero). Como resultado, Marrow entrou para os X-Men, meio contra a vontade, e como um desafio para o próprio Wolverine, já que ela tinha rancor de tudo e todos, mas obviamente todo mundo já sabia que se teria o enredo da “redenção” de Marrow (o mesmo caminho já trilhado por vários X-Men).

Isso veio a acontecer mais adiante, quando Marrow foi ferida mais uma vez e uma máquina alienígena a curou, dando-lhe total controle sobre seus poderes – o que incluía, obviamente, um controle de sua aparência. Surgiu aí uma Marrow doce e meiga, que agora via esperança em tudo, mas que não hesitava em usar seus poderes, de modo mais controlado. Essa situação, porém, durou pouco, pois o roteirista Chris Claremont retornou aos X-Men e “limpou” as pontas soltas e personagens que ele não queria usar. Claremont promoveu um salto cronológico de seis meses nas histórias dos X-Men e Marrow teria saído da equipe nesse período. Ela chegou a aparecer em uma história de Spider-Man, após sofrer lavagem cerebral e atuar como agente “infiltrada” da SHIELD em uma escola de ensino médio, com o nome de Sarah Rushman. Por que sofreu lavagem cerebral? Não sabemos… mas deram um jeito de arruinar a felicidade dela, não? Ficaria pior.

Uma nova série de Weapon X saiu em 2002, escrita por Frank Tieri e desenhada por Georges Jeanty – uma Weapon X sinistra e realizando missões secretas questionáveis para um grupo do submundo político – porém, a nova Weapon X seguia o exemplo de sua antecessora americano-canadense: experiências com mutantes – agora não para torná-los supersoldados, mas para torná-los simples armas. Assim, vários mutantes foram “recrutados” e sofreram graus diferentes de lavagem cerebral. Marrow estava lá, com seus poderes aumentados (agora podia criar tecido ósseo a partir da ponta dos dedos, entre outras excentricidades), com um corpo de modelo e uma atitude amoral. Marrow havia se “dado bem”, mas sua beleza não lhe garantia mais autorrealização – ela era uma arma a serviço de interesses escusos.

Depois que essa Weapon X foi desbaratada, Marrow voltou para a clandestinidade e perdeu os poderes mutantes no chamado “M Day”, quando Scarlet Witch disse a famosa frase “no more mutants” (“chega de mutantes”). Presa em sua forma mais feiosa dos primeiros dias dos X-Men, Marrow se tornou líder de um grupo terrorista de “ex-mutantes” – o rancor e o ódio estavam de volta.

E aí chegamos a uma nova série da X-Force (2014), escrita por Si Spurrier. Marrow estava lá de volta, com seus poderes originais de volta e totalmente maluca, sem memórias do passado. No entanto, estava mais amoral do que nunca – como ela obteve seus poderes de volta (já que não havia voltado a ser mutante)? E por que estava nesse estado de confusão mental?

As perguntas tinham respostas diferentes. Marrow soube de um procedimento experimental que podia restaurar os poderes perdidos de mutantes, com um sujeito chamado Volga. Voluntariou-se para o procedimento mesmo estando grávida – e sabendo que o feto seria abortado com isso. Marrow concordou com a situação e se submeteu, mas foi depois encontrada quase morta por Cable, que lhe aplicou um colar inibidor, que permitia que controlasse melhor seus poderes e suprimia suas memórias, inclusive do aborto. Cable receava que Marrow perderia o controle caso se lembrasse de tudo. Depois que essa versão da X-Force chegou ao fim, Marrow voltou a ser uma vilã… fim da história.

Como se pode ver, Marrow já teve pelo menos 3 “finais felizes”, mas isso sempre foi breve e terminou com perversidades ainda maiores. Para uma personagem que surgiu como uma mensagem de “ternura” em meio a um massacre, gerou-se uma criatura trágica e fadada ao abismo. Marrow teve bons momentos como heroína ou anti-heroína, mas parece que os roteiristas acham que ela funciona melhor como vilã – ela está “proibida” de alcançar a redenção.

Fontes:

Revistas referidas

Official Handbook of the Marvel Universe

Wikipedia

O que torna Quicksilver um velocista diferente?

Heróis supervelocistas são um arquétipo bastante comum nas histórias de super-heróis. O personagem mais famoso nessa seara é o Flash, da DC, que tem uma “família” enorme de personagens derivados – sim, na DC, Flash é um dos personagens principais (como se eu precisasse lembrar). Mas a Marvel também tem seus personagens supervelocistas, dos quais o mais relevante é Quicksilver, que não tem a mesma relevância que o Flash, mas tem suas características próprias.

Arquétipos são assim: são ideias básicas a partir das quais se constroem variantes. E os super-heróis giram em torno disso: não há plágio (a não ser quando é descarado) e nem “cópia” entre personagens como alardeiam muitos fãs apaixonados. Não há necessidade de saber quem surgiu primeiro, pois, universos compartilhados enormes terão obrigatoriamente personagens com os mesmos arquétipos, que são, geralmente, inescapáveis.

Porém, nessa situação inescapável é que se manifestam as diferenças – e elas existem abundantemente! Veja o caso de Flash e Quicksilver: em suas duas primeiras encarnações (Jay Garrick e Barry Allen), Flash é um dos heróis mais “certinhos” e “caretas” da DC. As duas encarnações seguintes (Wally West e Bart Allen) são versões mais divertidas e até atrapalhadas, mas sempre do “lado certo”… não se pode dizer o mesmo sobre Quicksilver, que começou como vilão, se tornou um herói problemático e complexado, que algumas vezes voltou a atitudes vilanescas (quer por interferência externa, quer por decisão própria). Mas essa situação de Quicksilver tem uma explicação decorrente de seus próprios poderes – não é fundamental, mas ajuda a explicar o problema. Aproveitando isso, vamos falar de alguns aspectos decorrentes desses poderes de velocidade, que nem sempre são lembrados pelos roteiristas, que confiam muito na “suspensão da descrença”, além do razoável… mas os leitores deixam de lado.

Antes disso, uma lembrança de que Quicksilver é o mais famoso supervelocista da Marvel, mas não o primeiro: Mercury (hoje conhecido como Makkari) e Whizzer foram criados também nos anos 1940, como o Flash original. Makkari é um eternal (humano “perfeito”), que emulava ser o deus romano Mercúrio; Whizzer era um velocista básico, com poderes derivados de um acidente bizarro e inexplicável. Quando criança, Robert Frank (seu nome civil) visitou a África com seu pai e foi picado por uma naja… para salvar sua vida, seu pai lhe aplicou uma transfusão de sangue de… mangusto (???!!???)… e essa transfusão lhe deu supervelocidade (hein??? mangustos são imunes a picadas de cobra por causa do pelame duro, mas supervelozes?).

Quicksilver tinha seus poderes derivados de mutação genética.  Isso até Quicksilver deixar de ser mutante, mas mesmo assim ele teria desenvolvido seus poderes em decorrência de experiências do High Evolutionary com isótopos radioativos (com a compra da Fox pela Disney, ele deve voltar a ser mutante em breve… hehe).

É interessante ver que os Flashes também não tiveram origens dos poderes muito convincentes. O primeiro Flash obteve seus poderes após inalar água pesada (que é um tipo de água com “hidrogênio mais pesado”)… e… o que isso tem a ver? Nada. O segundo e o terceiro Flashes tiveram poderes desenvolvidos por uma estranha e fortuita (que se repetiu duas vezes) combinação de eletricidade de um raio e substâncias químicas – o que também não tem explicação. Para isso, desenvolveu-se posteriormente o conceito de “speed force”. Essa “speed force” se tornou uma panaceia para a explicação da supervelocidade e outros consequências para os velocistas da DC. O que é? É uma energia extradimensional quase consciente, que permite que se desafiem as leis da física (lembrando que outros heróis da DC com supervelocidade, como Superman e Shazam, não compartilham da mesma origem).

A speed force serviria não só para conferir uma velocidade quase impossível, acima da velocidade da luz, mas também para proteger seus usuários do atrito (que deveria destruir não só suas roupas e calçados, mas sua própria pele). Também serviria para estender essa proteção contra atrito a “caronistas”, além de evitar que ficassem sem ar! Sim, porque em velocidades absurdas como essas, não é possível nem respirar!

Quicksilver não tem esse problema, porque seus limites são mais “humanos” – ele geralmente só consegue ultrapassar a velocidade do som – mas mesmo assim também teria de ter alguma proteção antiatrito semelhante – e não se tem notícia disso (os velhos trajes de moléculas instáveis de Reed Richards sempre servem de desculpa, mesmo que Quicksilver corra sem uniforme). Mas tem uma outra coisa que nem Quicksilver e nem os Flashes apresentam – a musculatura das coxas deveria ser hipertrofiada! Ora, se ciclistas e atletas olímpicos desenvolvem isso, por que os velocistas não fariam isso? John Byrne foi o único a considerar isso em sua criação autoral, os Next Men, em que seu supervelocista, chamado Danny, ficou com coxas hipertrofiadas.

Outra coisa que passou a ser explorada (e antes não era nem imaginada) após a Crisis on the Infinite Earths (o segundo reboot geral da DC), é que Flash deveria ter uma fome descomunal – claro, com supervelocidade, a energia do corpo é queimada muito mais rápido! Isso é uma lei metabólica da natureza! Quicksilver começou a ter uma situação semelhante mais ou menos na mesma época (aliás, nessa época, os poderes do Flash [Wally West] foram reduzidos aos níveis dos de Quicksilver – temporariamente, claro).

A partir dessa premissa metabólica, a supervelocidade também traria um superenvelhecimento (que chegou a ser mostrado em algumas histórias do Flash) – será que a speed force impediria isso? De qualquer forma, um fator de cura acelerado resolveria isso – e isso é mostrado várias vezes tanto nos Flashes quanto no Quicksilver – e sim, seria algo plenamente possível dentro do contexto mutante da Marvel.

Por fim, a velocidade de processamento do raciocínio também deveria ser maior, já que os neurônios (células nervosas) transmitiriam os impulsos elétricos mais rápido – se fazem isso nas pernas, por que não fariam no cérebro? De fato, faz sentido: isso não torna os supervelocistas mais inteligentes, mas faz com que pensem e falem muito mais rápido (às vezes de forma ininteligível). O quarto Flash, inclusive, leu todos os livros de uma biblioteca em minutos! Esse mesmo Flash também sofre de hiperatividade e, antes de ler a biblioteca, sofria de síndrome de déficit de atenção – perfeitamente coerente!

Daí chegamos onde queríamos: se o supervelocista tem a velocidade amplificada até menos na capacidade de raciocinar, isso não teria consequências em como o supervelocista vê a realidade e as outras pessoas? Claro! E é aí que entra a “especificidade” de Quicksilver – seu caráter antissocial viria de… tédio! O mundo todo parece estar em câmara lenta, e um personagem com personalidade já problemática vai se tornar mais impaciente e abrasivo! Esse aspecto praticamente define Quicksilver e, certamente, facilita seus acessos de vilania e até mesmo sua histórica superproteção com relação à irmã, Scarlet Witch (que até se degenerou em paixão no universo Ultimate, como ficou subentendido).

Portanto, Quicksilver tem uma caracterização “exclusiva” dentre os supervelocistas, que até serve para autodefini-lo. Aí está a base de como se deve trabalhar com arquétipos.

Fontes:

Official Handbook of the Marvel Universe

DC’s Who’s Who

Wikipedia

As inspirações altruístas dos heróis… bem, nem sempre… – parte 5

É, não conseguimos terminar no post anterior, mas agora não há mais dúvida – terminamos com este, em que veremos os heróis de 1964 a 1968. Acho que erramos o cálculo porque os anos de 1962 e 1963 foram demasiadamente criativos e produtivos na Marvel, e nos deram muito a comentar, ainda que de forma resumida. Bom, a introdução ao assunto, os anos 1940-1950 e 1961-1963 você pode conferir nas partes anteriores.

O ano de 1964 lançaria mais um herói que deveria ter sido lançado em 1963, mas atrasou (já falamos disso aqui no blog também). Daredevil era um herói cego, mas que, justamente por isso, não tinha medo de nada (já que não enxergava, mas compensava com os outros sentidos e a habilidade extra do “radar”). O próprio codinome já remetia a isso: “daredevil” é o nome do artista de circo que desafia o perigo com proezas superdifíceis. A origem de Daredevil era repleta de simbolismos: o garoto de boa índole que fica cego ao salvar um idoso; o pai miserável que o força a estudar para ser alguém na vida; o pai que se recusa a fraudar uma luta para não dar mau exemplo ao filho (e morre por causa disso); o filho que segue o pedido do pai e se torna um advogado de renome, mas percebe que a justiça é cega (como mostra sua representação), mas não para punir a todos os criminosos, mas para punir alguns e proteger outros. Daí surge o herói cego, que não faz distinção entre criminosos, aplicando a verdadeira justiça. Profundo… mas não funcionou inicialmente… o personagem só foi emplacar quando ficou mais violento e perturbado emocionalmente, quando se definiu uma rigidez religiosa conflitante por trás de sua cruzada.

Captain America e Namor voltaram a ter suas séries próprias, mas já falamos deles lá na primeira parte do post. Porém, ainda viriam duas séries importantes e com elementos parecidos: Captain Marvel (Mar-Vell) e Silver Surfer. Silver Surfer apareceu primeiro, em 1966, em um arco de Fantastic Four, mas só teria série própria em 1968. Captain Marvel surgiu em 1967.

Os dois repetem a velha premissa de motivação original do Human Torch androide, e já usada por Thor: eram alienígenas que vieram preparar a Terra para ser destruída e se apaixonaram pelo planeta e seus habitantes.  Captain Marvel teve uma abordagem mais simples desse conceito (que lhe custou o exílio forçado dos krees, sua espécie original) porque, na verdade, era um personagem com função estratégica: o nome “Captain Marvel” estava sem trademark no mercado e a Marvel tinha a oportunidade de garanti-lo.

Já Silver Surfer era outra situação: um personagem “acidental”, que Kirby desenhou em um esboço de Galactus e que Stan Lee quis colocar na história, já demonstrou, logo em sua primeira aparição ter descoberto a contradição, a dicotomia extrema, da humanidade – que podia ser nobre e ao mesmo destrutiva. Com a traição, Galactus puniu o herói a uma “prisão” na Terra (uma barreira invisível o impedia de sair do planeta e explorar o cosmo, que era o que mais adorava fazer) – e aí foi o prato cheio para Stan Lee explorar histórias com o personagem, repletas de elucubrações filosóficas e lamentos pela humanidade, sempre apostando em seu grande potencial (e sim, Silver Surfer também era perseguido por quem havia jurado defender). A bondade de Silver Surfer era tão pura que atraiu a cobiça de Mephisto, um dos principais “diabos” da Marvel (já fizemos um post disso também). E, o mais importante, Silver Surfer, junto com Doctor Strange, se tornou o material de entrada de Stan Lee no meio universitário, onde conseguiu expandir enormemente o número de fãs de seus personagens e colocou os personagens na grande mídia (já falamos disso aqui também outras vezes).

O Código de Ética continuou existindo até os anos 1990, mas sempre sendo relaxado, a partir do começo dos anos 1970. Assim as histórias começaram a ser mais polêmicas e mostrarem heróis e anti-heróis com características cada vez mais normais. As grandes mensagens morais e cívicas continuaram aparecendo, mas no bojo das histórias (e não de todas), e não mais estavam necessariamente incrustadas na definição dos personagens. Porém, isso não enfraquece o poder dessas histórias e desses personagens.

Até hoje, pautas da mídia (quer você concorde ou não) são colocadas nas histórias, de forma subreptícia ou escancarada, como acontece em qualquer outra forma de expressão. O poder das mensagens embutidas na ficção é enorme – o convencimento da opinião pública é sempre um objetivo assumido ou dissimulado. Não há como escapar disso, mas há como se manter independente. Por isso, antes de se declarar a favor de uma coisa ou outra, pare para pensar se essa ideia é sua ou não… e se você concorda ou não com ela… fica a dica… hehe

Fontes:

Marvel Chronicle – Year by Year

Sanderson, Peter – Marvel Universe

DC Comics Year by Year – A Visual Chronicle

Cursos variados de roteiro

As inspirações altruístas dos heróis… bem, nem sempre… – parte 4

Ufa… será que terminamos agora? hehehe Vamos ver… quando a gente se empolga, a coisa vai longe – e como não temos limite de espaço de pauta (só de interesse dos leitores) podemos nos estender mais. Bem… já vimos as “mensagens ocultas” e “lições de moral e civismo” nas concepções dos heróis da Marvel em 1961 e 1962… (como chegamos nisso, você terá de ler as partes anteriores… hehe); agora vamos ver os demais heróis de 1963 a 1968. No caso, não todos os heróis que foram criados, mas aqueles que receberam títulos próprios.

O ano de 1963 foi o último da “explosão criativa” inicial de Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko, e o primeiro novo herói da fila foi Iron Man. Em suma, Iron Man era outro personagem celebrando a superioridade militar americana, no combate principalmente (mas não só) ao comunismo. Mas, antes de tudo, era o símbolo do empreendedorismo americano, que fazia fortuna, mesmo com contratos ligados ao governo americano – ora, afinal, ele estava contribuindo para a segurança do país! A mensagem armamentista de Iron Man só foi mudar em meados dos anos 1970, quando realmente se percebeu a incoerência do discurso para um super-herói que aprendeu a superar sua grande deficiência – e lutava sempre contra isso. Bem, mais ou menos.

O grande problema de Tony Stark eram a arrogância e o egoísmo. O egoísmo foi superado após sua lição de vida na situação de guerra que viveu e quando desenvolveu sua armadura prototípica do nada (já fizemos um post aqui no blog sobre a mudança progressiva de local dessa origem, do Vietnã para o Afeganistão). E para essa lição não ser esquecida, Stan Lee e Jack Kirby deram um lembrete para ele: o estilhaço metálico que ameaça rasgar seu coração e precisava ser afastado permanentemente por um ímã no peito. Inicialmente, Stark até precisava recarregar esse ímã todos os dias, senão morria. Essa limitação foi superada quando a ciência média real já era suficientemente avançada para resolver o problema – e aí veio outro problema limitante para controlar os ímpetos de Tony Stark: o alcoolismo. Mas mesmo com tudo isso, Stark não venceu sua arrogância, que até passou a ser vista com “simpatia” pelos fãs e muitos roteiristas até mesmo usaram como um “auxílio de identidade secreta”, tal como acontece com Bruce Wayne e Clark Kent até hoje – suas identidades secretas quando não atuam como super-heróis têm comportamentos notadamente diferentes.

Nick Fury veio em seguida como herói de guerra, em histórias que não eram exatamente de super-heróis. Mas, mesmo assim, o que se tinha ali era o patriotismo e a luta pela liberdade como elementos básicos e óbvios. Isso persistiria quando Fury receberia sua remodelação que o tornaria o principal superespião da Marvel, coordenando a SHIELD. Mesmo sendo agora um tipo de “super-James Bond”, Fury estava lá defendendo a mesma coisa – a humanidade contra o nazismo e outras ideologias condenáveis (Hydra e AIM representavam metaficcionalmente isso). O comunismo, porém, não era uma grande preocupação de suas histórias, já destoando um pouco do clima da Guerra Fria tão onipresente na época.

Doctor Strange tinha como seu grande defeito original a soberba. Médico cirurgião de ponta, Strange se tornou uma pessoa tão soberba e materialista que passou a escolher seus pacientes, mesmo que ele fosse sua única esperança de uma pessoa. Essa atitude abjeta culminou com um acidente de carro que arruinou seus nervos das mãos (algo meio vago e genérico, mas funciona até hoje). Strange então gastou toda a sua fortuna para encontrar a cura e retomar sua carreira vitoriosa – nunca encontrou, mas encontrou a cura de sua alma, ao aprender magia com o Ancient One e se tornar o mago mais poderoso do universo, o Sorcerer Supreme. É curioso que, com o passar do tempo, Strange teve recaídas, o que mostra que está sempre lutando contra isso (e a própria magia se encarrega de lhe dar lições).

Os Avengers vieram em seguida, como a reunião dos grandes heróis da editora. Não existe aí uma grande mensagem por trás, a não ser a união de propósitos e a “vingança” de quem não pode se vingar – é daí que vem o nome do grupo. No entanto, essa promessa do próprio nome da equipe raramente se manifestou, com o grupo se tornando uma linha de defesa da humanidade.

Finalmente, encerrando o ano de 1963, tivemos os X-Men. Os X-Men eram uma equipe diferente com outra proposta: era uma escola – seus heróis eram alunos… e alunos de quê? De tudo, mas também de controle de seus poderes: ao contrário da maioria dos heróis até então, os X-Men nasceram com seus poderes, ocultos nos códigos genéticos. E isso causava terror e apreensão nas pessoas “comuns”, que não estavam acostumadas com isso – o que era corroborado pelos “mutantes do mal”, liderados por Magneto, entre outros. Havia ali uma mensagem de tolerância entre opiniões diversas e, principalmente, racial. Os EUA viviam um período de luta por direitos de igualdade racial, que teria seu ápice no final dos anos 1960 (ainda não terminou, é claro, mas essa fase mais aguerrida ocorria no período). Basicamente os X-Men representavam a corrente de Martin Luther King, de convivência, e Magneto representava a corrente de Malcolm X, de confronto. Porém, essa profundidade de discussão política não refletia muito nos leitores. Reconhecia-se a alegoria do assunto, mas parecia que isso não era algo que interessava tanto aos leitores – tanto é que logo as histórias ficaram genéricas, para depois retomarem uma mensagem de tolerância racial.

Bem, não consegui cumprir a promessa… vamos para a quinta parte do post, analisando os anos de 1964 a 1968, ok?

Fontes:

Marvel Chronicle – Year by Year

Sanderson, Peter – Marvel Universe

DC Comics Year by Year – A Visual Chronicle

Cursos variados de roteiro

As inspirações altruístas dos heróis… bem, nem sempre… – parte 3

Como vimos nas partes 1 e 2 deste longo post, há toda uma tradição histórica sobre a função básica das narrativas orais e mitológicas, passando pelas tragédias e textos religiosos e, por fim, chegando aos folhetins, pulps e quadrinhos. Não vamos rememorar tudo por questões de espaço e de interesse do próprio leitor… hehe Mas vamos apenas ressaltar o ponto principal da parte 2: o Código de Ética que as editoras de quadrinhos se autoimpuseram após a “caça às bruxas” desencadeada pelo psiquiatra Frederic Wertham levou a uma autolimitação criativa das editoras, que passaram a retomar as funções “educativas” das histórias. O nascente Universo Marvel, apresentava personagens mais humanizados, e as origens desses heróis também giravam ao redor de lições morais e cívicas.

Terminamos a parte 2 falando sobre as “mensagens cívicas e morais secretas” do Fantastic Four: a primeira equipe de super-heróis que era uma “família” não teve essa composição por acidente (veja a parte 2, em seu final, para conferir tudo que estava envolvido). Não existem informações de que Stan Lee e Jack Kirby tenham sentado e planejado todas essas mensagens subliminares ali – muito provavelmente porque isso nunca aconteceu. Mas pode-se dizer que estava ali inserido no próprio subconsciente deles, e nas orientações que deviam seguir. Stan Lee sempre foi um opositor ferrenho de Wertham e do Código de Ética – chegou até a expressar claramente isso várias vezes. No entanto, Stan Lee sempre teve a mente voltada para o marketing, e ele queria que os produtos que ele assinava vendessem – e muito! Então, inserindo uma ousadia aqui e outra ali, ele seguia cumprindo o Código de Ética consciente e inconscientemente – eu digo “inconscientemente” porque, por mais que Lee e Kirby tivessem mentes mais liberais e menos conservadoras, o “zeitgeist” da época era esse, os tempos eram esses e eles seguiam o que era o senso comum. Isso explica porque suas heroínas foram, por muito tempo, “donzelas em perigo”, sempre o elo fraco das histórias: porque esse era o senso comum da época. O Mister Fantastic até mesmo “explicou” aos leitores qual era o papel da “frágil” Invisible Girl (que os leitores achavam um “estorvo”) – ela teria tido a mesma importância que a “mãe de Abraham Lincoln” – era ela que mantinha a equipe focada em cumprir suas missões (!!???!!).

As coisas só começaram a mudar lá na segunda metade dos anos 1960, com influência do movimento hippie e do próprio foco da Marvel no público universitário… mas, antes disso, houve outros heróis sendo criados, na esteira do modelo de Fantastic Four.

O ano de 1962 viu surgir alguns novos heróis. Ant-Man era um cientista típico, que representava o poderio científico e empreendedor do americano e, antes de tudo, uma força no combate ao comunismo. Era um personagem até certo ponto unidimensional (já fizemos uma resenha completa das histórias dele nos anos 1960 aqui no blog) e isso só mudou com a chegada da Wasp, que saía um pouco do estereótipo feminino da Marvel – mas refletia outra tendência dos sitcoms da época: a garota espevitada e irresponsável. Como já dissemos antes aqui no blog, as aventuras de Ant-Man (depois Giant-Man) e Wasp eram um sitcom em quadrinhos, à la Lucille Ball. Os problemas psicológicos de Hank Pym (o Ant-Man original) só viriam a aparecer depois, nas aventuras dos Avengers, provavelmente porque o personagem precisava ter um defeito (além do proverbial “defeito” de todos os cientistas dos quadrinhos: ficar absorto em seu trabalho).

O Hulk veio em seguida, com sua nova roupagem da história do Médico e o Monstro (Jekyll e Hyde). Porém, havia outras coisas ali. Além de ser outro herói “anticomunista” ferrenho – na verdade, um anti-herói – o Hulk representava a superioridade militar dos EUA. Sim, você não leu errado, o americano tinha orgulho de sua superioridade militar, não só por ter vencido a Segunda Guerra Mundial, mas também pela corrida armamentista e espacial da Guerra Fria. A Guerra do Vietnã ainda era uma possibilidade, e a Guerra da Coreia terminou “empatada” – na propaganda oficial, os EUA (e a ONU) detiveram o avanço comunista ao fazerem os comunistas recuarem até a fronteira original. E mais, o “fracasso” da explosão da bomba gama (que até então faria um teste “seguro”) foi causado por um espião comunista – “invejoso do progresso americano”. No entanto, tinha ali outra coisa: o alter ego de Bruce Banner demonstrava tudo que o cidadão de bem tinha de reprimir. Era bom expressar essas atitudes perante o “inimigo vermelho”, mas não em sociedade… sutil, hein? A luta constante de Banner era separar suas personalidades de forma controlada e dar uma finalidade a elas.

Thor tem uma origem menos complicada – é uma lição de humildade pura e simples. Thor era muito orgulhoso de sua condição de deus (entre os humanos) e de sua condição de herdeiro do trono de Asgard (entre os deuses nórdicos) e precisou ter uma lição de humildade, vivendo alguns como um médico manco (limitação física, aparecendo pela primeira vez) e destinado a salvar a vida dos outros. Porém, quando Thor e Don Blake passam a dividir o mesmo corpo, outra coisa surge no coração de Thor (e que se repetiria em outros heróis “alienígenas”): o amor pela humanidade – o que levou Thor muitas vezes a desafiar Odin! O que é um resgate da mensagem do Human Torch original, diga-se de passagem.

O ano de 1962 terminou com o surgimento de Spider-Man. O herói que foi criado para se identificar com o leitor jovem e complexado (era o sidekick do passado incorporado ao próprio herói) era, na verdade, um personagem melancólico, cujo principal elemento impulsionador era o remorso. Sim, enquanto Peter Parker queria usar seus poderes em proveito próprio e dava de ombros ao combate ao crime, esse crime matou seu tio que atuava como pai. A famosa frase “com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades” não estava lá no início, mas seu espírito estava. Após a morte do tio Ben, Peter Parker sacrificou sua própria vida pessoal para proteger os inocentes. Isso é bem conhecido, mas existe outra coisa ali que é até ideológica e muitos não percebem: Spider-Man é uma história contínua de superação, por esforço próprio. Mesmo com todo o seu remorso, e as dificuldades de sua vida pessoal, Peter Parker sempre se esforça ao máximo para vencer todas as adversidades. Essa é a essência do America Way of Life e, mais ainda, é a mensagem basilar do capitalismo e do liberalismo econômico – não espere os outros fazerem por você o que é seu dever fazer. Para o garoto complexado que lia as histórias, lá estava a mensagem: “só depende de você superar as dificuldades”!

E o texto correu e ainda não terminamos… teremos a quarta parte do post em seguida, onde veremos os heróis restantes, ok?

Fontes:

Marvel Chronicle – Year by Year

Sanderson, Peter – Marvel Universe

DC Comics Year by Year – A Visual Chronicle

Cursos variados de roteiro